Sentidos da Consciência Negra: uma experiência no CAp-UERJ

A exposição “Sentidos da Consciência Negra: uma experiência no CAp-UERJ” é fruto da primeira experiência de realização de uma Semana da Consciência Negra no Instituto de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira – CAp-UERJ. A iniciativa do Departamento de Ciências Humanas e Filosofia (DCHF), composto pelas equipes de Filosofia, Geografia, História e Sociologia do instituto, surge da vontade de criar um evento do departamento no calendário anual do colégio dedicado à temática negra e da necessidade de consolidar o ensino de África e de história e cultura afro-brasileiras como partes integrantes de uma educação pluriversal e antirracista.

De acordo com a lei 10.639/2003, o dia 20 de novembro deve ser incluído no calendário escolar como ‘Dia Nacional da Consciência Negra’. A data faz referência ao dia em que o líder quilombola Zumbi dos Palmares teria sido assassinado em 1695 e foi eleita pelo movimento negro como um marco da luta negra e dos escravizados. Porém, passados quase 20 anos da promulgação da lei, que torna obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileiras nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, ainda hoje lutamos para que suas determinações sejam cumpridas.

Assim, a criação da Semana da Consciência Negra no CAp-UERJ significou não somente continuar caminhando para a adequação do instituto à lei, mas também contribuir para um movimento maior de conscientização e educação como prática cotidiana. O 20 de novembro é uma data símbolo, mas as discussões que a permeiam não devem se resumir a apenas um dia ou semana no calendário, e sim se perpetuar ao longo de todo o ano letivo. Neste sentido, esperamos que a realização do evento possa representar o começo de uma tradição na escola, independente dos atores envolvidos, que possa ser um legado deixado para o CAp-UERJ e futuras gerações de professores e estudantes.

Mobilizados por esses sentimentos e questões, e considerando ser esta a primeira vez que um evento deste caráter seria realizado na escola, foi construída uma proposta em que atividades seriam desenvolvidas ao longo do trimestre letivo, tendo como tema a Semana da Consciência Negra, e que culminaria em um dia de evento para a apresentação dos trabalhos. Entendendo que o ensino de história e cultura afro-brasileira e que a educação e antirracista se constrói através da representatividade, ou seja, de conhecer personagens apagados das narrativas dominantes e de se reconhecer em pessoas comuns que fizeram a história, consideramos fundamental que a cada ano o evento tivesse um/a homenageado/a. Para a primeira edição a homenageada escolhida foi a filósofa, historiadora, geógrafa e feminista, Lélia Gonzalez, por sua atuação como militante do movimento negro e da educação, e por sua relação com a UERJ e o CAp-UERJ, especificamente, onde foi estudante e professora entre as décadas de 1950 e 1960.

Apesar de ser conhecido como o Colégio de Aplicação da UERJ, o CAp-UERJ constitui um instituto da universidade, o que significa que além de atender à educação básica e de ser campo de estágio para estudantes de licenciatura, esta unidade também atua na graduação e na pós-graduação. Por este motivo, pensando neste caráter múltiplo, foi importante construir uma proposta que atravessasse estes diferentes níveis de ensino. Desta forma, os professores e professoras do departamento desenvolveram atividades relacionadas ao tema com as suas turmas do 6º ano do ensino fundamental ao 3º ano do ensino médio. Em alguns anos de escolaridade estas atividades se deram de forma interdisciplinar, congregando duas ou mais disciplinas do departamento, e algumas também contaram com a colaboração de disciplinas de outros departamentos do instituto. Ainda, outro aspecto importante da proposta, foi o envolvimento dos estudantes de graduação, que atuaram tanto na formulação e aplicação das atividades quanto como monitores no dia do evento.

O evento em questão ocorreu no dia 23 de novembro de 2019, um sábado letivo pela manhã, no CAp-UERJ, intitulado de 1ª Semana da Consciência Negra do CAp-UERJ. O formato escolhido para sua realização foi de feira escolar. Para nós não se tratava apenas de apresentar os trabalhos das/dos estudantes, mas sim de promover um grande encontro da comunidade capiana em forma de celebração à cultura negra. Por isso convidamos parceiras e parceiros de diferentes áreas de atuação, como culinária, contação de histórias, música, beleza, autocuidado, vestimentas e literatura, para estarem conosco nesse dia. Assim, o evento da 1ª Semana da Consciência Negra do CAp-UERJ se transformou numa verdadeira festa, onde os presentes, fossem crianças, jovens, adultos, mães, pais, famílias, funcionários, visitantes ou colaboradores, puderam experimentar diferentes sentidos. O que você, visitante, vê nesta exposição são os registros deste dia.

Assim, convidamos você a um passeio pelo evento através das galerias desta exposição. Elas estão dispostas através de ícones sobre uma representação artística da planta do colégio, de forma a proporcionar que mesmo aqueles e aquelas que não conhecem o CAp-UERJ possam se arriscar em um exercício de imaginação sensorial e espacial. Logo ao chegar no colégio, no hall de entrada, o/a visitante adentrou no espaço onde foi montada a exposição “Lélia Gonzalez – o feminismo negro no palco da história”, organizada e gentilmente cedida pela Rede de Desenvolvimento Humano (REDEH). Ela funcionou como um grande abre-alas, recebendo aqueles e aquelas que chegavam e já apresentando nossa homenageada. Por este motivo, nesta galeria, você encontra um tributo à Lélia Gonzalez.

Na sequência, o/a visitante poderia subir as escadas à sua direita e estaria no bloco A do colégio. Este bloco abriga, em sua maioria, as turmas de ensino fundamental II e do ensino médio, segmentos atendidos pelo Departamento de Ciências Humanas e Filosofia (DCHF), cujas turmas foram foco das atividades desenvolvidas pelos professores e professoras ao longo do trimestre. Portanto, na galeria do Bloco A estão os registros dos trabalhos apresentados pelas turmas, do envolvimento dos/as estudantes e da interação destes com os/as visitantes.

Descendo as escadas e voltando para o hall de entrada, depois de passar pela cantina, o/a visitante se deparou, à sua esquerda, com o trabalho de Lu Brasil sendo construído diante de seus olhos. A artista, acompanhada por Carla Felizardo, nos presenteou com seu grafite em homenagem à Lélia Gonzalez, deixando a presença e força dessa mulher presente nas paredes do CAp para todos os dias nos lembrar de seu legado e nos inspirar nas nossas ações e práticas cotidianas. Na galeria Grafite, você pode acompanhar um vídeo em formato time-lapse do processo de construção desta linda intervenção.

Seguindo pelo pátio, o/a visitante se encontrou imerso em uma explosão de cheiros, cores e sons que o/a convidariam a conhecer e experimentar do trabalho das expositoras negras que foram nossas parceiras no evento. Trabalhadoras que, gentilmente, toparam expor seus trabalhos de culinária, doceria, literatura, contação de histórias, artesanato, brincos, saias, batas, tranças e turbantes, empreendidos de forma a contribuir para a autoestima da população preta e a fortalecer laços de uma economia negra. Na galeria do pátio você é convidado também a conhecê-las através dos registros fotográficos, que infelizmente, não dão conta da grandeza de seus trabalhos.

O bloco B, localizado após o pátio, comporta, em sua maioria, as turmas do ensino fundamental I. Este prédio não foi utilizado no dia do evento. No entanto, considerando a grande participação das crianças, estudantes ou visitantes, optamos por incluir uma galeria dedicada a elas. As crianças foram protagonistas em muitas das atividades realizadas: correram, dançaram, cantaram, interagiram, se envolveram e se sentiram como parte integrante do evento. Por isso, na galeria do Bloco B, você encontra alguns desses momentos capturados.

Caminhando para a quadra, o espaço onde as atividades coletivas ocorreram, o/a visitante pôde fazer parte dos momentos de maior interação do dia. Local onde a abertura e o encerramento do evento aconteceram, a quadra possibilitou agrupar os/as presentes em atividades coletivas: a mesa de abertura, momento inicial do evento que apresentou a vida e obra de Lélia Gonzalez, nossa homenageada, ao público; as apresentações musicais de Ah!Banda e GeoSamba; e a importante fala do CAPRETOS, coletivo negro do CAp-UERJ. Na galeria da Quadra você encontra o registro destas atividades. Pelo fato da Folia de Reis Mirim ter se apresentado em forma de cortejo, passando pelos diferentes espaços do colégio e conduzindo as pessoas de volta à quadra, preferimos representá-los em uma galeria própria, que leva o nome do grupo.

Por fim, mas não menos importante, para que este evento fosse possível foram muitos/as trabalhadores e trabalhadoras envolvidos: desde a comissão organizadora do evento, passando pelos/as funcionários/as do colégio que atuaram na infraestrutura de equipamentos, som, segurança e limpeza, pelo amigo que colaborou com os registros fotográficos, até os/as estudantes de graduação que desempenharam o papel de monitores. Todas essas pessoas realizaram um trabalho quase imperceptível, mas que garantiu que o evento acontecesse e que todos/as os/as presentes pudessem usufruir desse dia. Pelo trabalho fundamental a galeria Dos/as Trabalhadores/as é dedicada a eles/as. Para dar rosto aqueles e aquelas que, na maioria das vezes, são invisibilizados/as.

Esperamos que você goste do passeio e que seja tocado pelos diferentes sentidos de nossa experiência de realização da 1ª Semana da Consciência Negra do CAp-UERJ. Quem sabe esta experiência não possa, também, servir de inspiração para você, qualquer que seja a sua forma de atuação na sociedade. Boa visitação!

Ficha técnica:

Curadoria: Guilherme Nogueira de Souza, Deborah Fontenelle, Alan Pacífico, Larissa Costard e Vladimir Ribeiro
Textos: Deborah Fontenelle, Alan Pacífico e Guilherme Nogueira de Souza
Revisão de texto: Deborah Fontenelle, Guilherme Nogueira de Souza e Vladimir Ribeiro
Fotografia: Guilherme Nogueira de Souza, Caique Gueri, Larissa Costard, José Roberto Rodrigues e Deborah Fontenelle
Edição de fotografia: Guilherme Nogueira de Souza
Arte: Daniela Seixas
Website: Wallace Augusto dos Santos da Silva
Comissão organizadora do evento: Alan Pacífico, Deborah Fontenelle, Guilherme Nogueira de Souza, José Roberto Rodrigues, Larissa Costard, Vinícius de Moraes e Vladimir Ribeiro

Exposição em Desktop

 

Exposição em Celular