Espaço de entrada: Tributo à Lélia González

A 1ª Semana da Consciência Negra do CAp-UERJ teve como homenageada a filósofa, historiadora, geógrafa, feminista e militante do movimento negro Lélia de Almeida (1935 – 1994), mais conhecida como Lélia Gonzalez. Nascida numa Belo Horizonte fundada há menos de 40 anos, Lélia foi a penúltima filha de uma família de 18 irmãos. E foi por conta de um dos seus irmãos, o futebolista e treinador Jaime de Almeida, que Lélia e toda família Almeida migram da capital mineira para a capital fluminense, fixando residência em Ricardo de Albuquerque. Tendo tantos irmãos mais velhos, Lélia foi criada como filha pelos irmãos e como neta pelos pais. Diferentemente dos demais irmãos, teve maiores oportunidades de estudar. Primeiro, ainda em Belo Horizonte, no jardim de infância custeado pelos patrões de sua mãe e, posteriormente, já no Rio de Janeiro, em escolas públicas de referência como a Escola Rivadávia Corrêa e o Colégio Pedro II, sendo este segundo um marco na formação na jovem Lélia Gonzalez. Toda essa trajetória, que começava a deslocar Lélia dos lugares socialmente determinados para jovens negras de sua geração, só foi possível por uma ampla rede de apoio.  

Foi no Colégio Pedro II, no Centro da cidade, que os interesses intelectuais de Lélia se voltaram para os temas aos quais se dedicaria na formação universitária: Língua francesa, História, Geografia e Filosofia. Tendo concluído o bacharelado e a licenciatura em História e Geografia na recém-criada Universidade do Estado da Guanabara (UEG), atual Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), em 1958. Aos 27 anos, em 1962, Lélia terminaria sua graduação em Filosofia. Neste período Lélia já era professora do Colégio de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira, atual CAp-UERJ. Sua trajetória já a distinguia da maioria dos brasileiros, especialmente das mulheres negras do mesmo período. A Lélia, intelectual qualificada, está sendo forjada nos bancos da universidade, mas ainda não nasceu a militante e intelectual orgânica do movimento negro e do movimento feminista. Muito pelo contrário, a autora viria perceber a desconexão com suas origens e o embranquecimento cultural que as passagens pelas instituições educacionais fora promovendo em sua biografia.  

Foi ainda na década de 60 que Lélia conheceu Luís Carlos Gonzalez, um homem branco com quem viria a casar em 1964. Luís Carlos foi personagem importante na biografia de Lélia, apesar de sua curta passagem em vida. Com a rejeição da família do marido ao casamento, pela primeira vez Lélia se deparou de maneira mais consciente com o racismo. Foi Luís Carlos quem também colaborou com a autorreflexão de Lélia sobre o seu processo de embranquecimento. Luís Carlos cometeu suicídio em 1965. Em sua homenagem, Lélia manteve o sobrenome Gonzalez. E nunca mais voltaria a ser Lélia de Almeida.  

No início dos anos 70, Lélia Gonzalez atua como tradutora de obras de Filosofia e se aproxima das reflexões psicanalíticas, especialmente dos trabalhos de Lacan. Este período é marcado por uma transformação profunda na ação política de Lélia. É o período inaugural de sua militância. Também é deste período a primeira referência à Lélia no Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), sendo investigada como potencial “subversiva”, uma vez que estávamos em plena ditadura civil-militar instaurada com o golpe de 64. Também é deste período a aproximação de Lélia do Candomblé e o início da reconstrução da imagem de si como mulher negra e latino-americana. Ou melhor, uma mulher amefricana de uma “ladino-américa”.  

Entre os anos de 75 e 78, ainda no contexto da ditadura militar, Lélia ajuda a fundar o Instituto de Pesquisa das Culturas Negras (IPCN), uma instituição que congregava pesquisadores e militantes da temática racial e que foi um marco histórico de enfrentamento da ideologia da miscigenação promovida pelos governos autoritários daquele período. No ano seguinte, Lélia inicia o primeiro Curso de Cultura Negra na Escola de Artes Visuais do Parque Lage (RJ), o que a torna conhecida de uma parcela significativa da militância e de intelectuais de esquerda. Por fim, em 1978, Lélia estava dentre os fundadores do Movimento Negro Unificado (MNU) que se reuniram nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo em crítica e reação à violência de Estado contra jovens negros. Lélia, assim como toda uma geração de militantes, inaugurava o novo movimento negro após o silenciamento imposto pelo golpe de 64 a todos os grupos sociais críticos ao Estado e suas políticas de reprodução de privilégios de raça, classe e gênero.  

Entre 1981 e 1985, Lélia foi filiada ao recém-criado Partido dos Trabalhadores (PT), compondo o Diretório Nacional do partido, e sendo candidata a deputada federal – sem êxito – pela legenda. Em 1986, filia-se, por influência de Abdias do Nascimento, ao Partido Democrático Trabalhista (PDT). Também se candidata, tornando-se suplente. Neste período de intensa militância político-partidária, no contexto da reabertura, Lélia viaja aos Estados Unidos e estabelece contato com lideranças negras de lá, dentre elas, Angela Davis, Annie Rogers Chambers e Helena Moore. Como militante negra e feminista, é alçada ao Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM), nomeada pelo presidente José Sarney, onde fica até 1989, abandonando o mandato em crítica ao governo.  

Entre os anos de 1987 e 1994, Lélia dedica-se a uma intensa produção acadêmica enquanto leciona na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). O livro “Festas Populares no Brasil”, premiado na Feira de Leipzig, Alemanha, é expressão desse período. Já com a saúde precocemente debilitada, Lélia participa da famosa Marcha por Zumbi dos Palmares de 1988, um marco no debate racial no Brasil pós-ditadura.  

No dia 10 de julho de 1994, aos 59 anos, Lélia Gonzalez veio a falecer dormindo, em sua residência, em função de um enfarto do miocárdio, deixando um significativo legado para o movimento de mulheres e para o movimento negro, sendo referência no debate sobre interseccionalidade e também nas reflexões sobre uma experiência de negritude tipicamente latino-americana, sob forte influência indígena e africana frente ao ideal colonial europeizante. 

Para o CAp-UERJ celebrar a sua 1ª Semana da Consciência Negra tendo Lélia Gonzalez como homenageada significa reencontrar a sua própria história e celebrar um grande nome que não somente foi egressa da antiga Universidade da Guanabara, como atuou como docente no CAp. É reviver a memória e ofertar a biografia desta grande intelectual e militante como referência às novas gerações. Neste sentido, foi central a contribuição da exposição “Lélia Gonzalez – o feminismo negro no palco da história”, patrocinada pelo Banco do Brasil como parte do Projeto Memória, e organizada pela Rede de Desenvolvimento Humano (REDEH), uma associação civil que tem como missão a promoção do desenvolvimento humano que contemple a igualdade entre os gêneros, raças/etnias, o desenvolvimento justo e sustentável, a proteção e conservação do meio ambiente e promoção da diversidade cultural. A exposição cedida pela REDEH possibilitou ao público um contato mais direto com a biografia de Lélia e de sua importância para a história do movimento negro e do movimento de mulheres no Brasil.   

Celebrar a memória de Lélia também significou assumir sua perspectiva política na concepção do evento e mesmo desta exposição, centrada no protagonismo da mulher “amefricana” em ação, construindo o mundo e movendo com ela a estrutura social em direção a transformação do mundo. Celebramos a memória de Lélia. Celebramos a centralidade do seu trabalho político e intelectual na construção de um novo mundo. Celebramos sua vida inspiradora para novas gerações de meninas e meninos negros que precisam conhecer a contribuição intelectual de nomes da envergadura de Lélia Gonzalez.

Lélia Gonzalez: quebrando paradigmas

Januário Garcia¹

Na história contemporânea da luta do movimento negro no Brasil, as mulheres têm dado o tom e conduzido a direção da luta. Inúmeras são essas guerreiras que, ao longo desta história recente da nossa luta têm contribuído de forma decisiva para o nosso avanço. Algumas já se foram, mas deixaram contribuições significativas.

Uma dessas guerreiras que nos deixou foi Lélia de Almeida Gonzalez. Mineira, de Belo Horizonte, veio com a família morar na cidade do Rio de Janeiro porque o irmão mais velho, Jayme de Almeida, que se destacava como jogador de futebol no Clube Atlético Mineiro (Belo Horizonte, MG), foi convidado para jogar no Clube de Regatas do Flamengo (Rio de Janeiro, RJ).

A irmã caçula, estudou no Colégio Estadual Orsina da Fonseca e no Colégio Pedro II. Graduou-se em História e Geografia, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ. Logo graduou-se também em Filosofia – UERJ. Foi mestranda em Comunicação Social (UFRJ) e chegou a frequentar o doutoramento na Universidade de São Paulo – USP, em Antropologia Social, sob orientação da Professora Doutora Manuela Carneiro da Cunha.

Conheci Lélia em meados dos anos 60 quando ela veio morar em um apartamento ao lado do meu. Houve uma identificação instantânea, pois éramos os únicos negros moradores do prédio, eu já morava lá há mais de 5 anos. Foi a partir desse encontro que nos tornamos amigos e aliados em defesas dos nossos direitos.

Como educadora, lecionou em inúmeras escolas de nível médio, em faculdades e universidades. Foi professora no Instituto de Educação, no Colégio de Aplicação (UERJ), na rede estadual de ensino, em escolas confessionais, dentre outras.

Foi a partir da década de 70 que frequentávamos as primeiras reuniões do Movimento Negro na Universidade Candido Mendes no Afro Asiático, foi ali e depois no Teatro Tereza Raquel que efetivamente o Movimento Negro no Rio de Janeiro tomou impulso. Nossa amizade já tinha virado irmandade, nossas famílias se pareciam, foram laços que nunca mais se desfizeram, muito pelo contrário foram ficando cada dia mais fortes, parecia uma só família.

No final 1970 Lélia era uma assumida mulher negra: “Essa questão do branqueamento bateu forte em mim e eu sei que bate muito forte em muitos negros também. Há também o problema de que, na escola, a gente aprende aquelas baboseiras sobre os índios e os negros; na própria universidade o problema do negro não é tratado nos seus devidos termos.” (O Pasquim — Entrevista –, n° 871, 20 a 26/3/1986).

Foi em 1982 que Lélia escreveu “Lugar de Negro”, junto com Carlos Hasenbalg (1942-2014 – sociólogo argentino, atuou como professor e pesquisador nas áreas de relações raciais, estratificação social e mobilidade social. Trabalhando no Brasil desde 1969, o país foi o foco de suas preocupações intelectuais) (Editora Marco Zero).

Sua atuação como militante se deu em vários segmentos da sociedade, no entanto foi no Movimento Negro que ela se consagrou. Participou da fundação do Instituto de Pesquisas das Culturas Negras – IPCN, no Rio de Janeiro; da fundação do Movimento Negro Unificado Contra
a Discriminação Racial – MNUCDR, da fundação do Nzinga Coletivo de Mulheres Negras, Rio de Janeiro.

A formação de Lélia a colocou no patamar das grandes pensadoras brasileiras, e a mais importante intelectual negra.

Foi Lélia quem colocou na agenda do Movimento Feminista Brasileiro — naquela ocasião composto por mulheres brancas de classe média — a participação da mulher negra na construção social brasileira: o Feminismo Negro.

Em 1975, a ONU oficializa o dia 8 de março como Dia Internacional da Mulher. No Rio de Janeiro, as feministas estavam reunidas na Associação Brasileira de Imprensa (ABI) para celebrar a data. As mulheres negras compareceram levando suas reivindicações. Enegrecer o Feminismo foi a estratégia de Lélia junto com as companheiras para mudar os rumos do feminismo no Brasil, pondo fim à invisibilidade das mulheres negras nos movimentos sociais.

Neste movimento de consciência negra acabando com a invisibilidade das mulheres negras e o resgate da dignidade da população negra, Lélia instituiu cursos sobre a temática “Etnia e Racismo” em importantes lugares de referência, na zona Sul da cidade. Na Escola de Artes Visuais do Parque Lage — EAV- Parque Lage, no Jardim Botânico, Lélia foi convidada pelo diretor, o artista plástico Rubens Gerchman (1942 – 2008), para levar sua matrícula como professora concursada do Governo do Estado, para atuar junto aos alunos discutindo a questão do “espaço” urbano e a relação com a exclusão e o racismo. Nessa direção, Lélia trabalhou com o tema da Proxemia (estudo que trata da «linguagem do espaço», uma «dimensão oculta» que permite uma regulação comportamental das distâncias nos espaços comuns). Na mesma direção, Lélia instituiu a disciplina no Departamento de Artes da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro — PUC-Rio.

Para Lélia Gonzalez não bastava bradar e militar sobre a inserção da pessoa negra nos espaços de trabalho, lazer, cultura e poder. Lélia queria o fundamento disso. Como conhecedora da História e Filosofia Ocidentais, professora de Lógica Matemática (que analisa determinada proposição buscando identificar se representa uma afirmação verdadeira ou falsa), conhecedora de Estética e apreciadora das Artes, Lélia “ganhava” a conversa pelo argumento com fundamento. Conhecendo bem o “lugar” do interlocutor, era deste lugar que Lélia conseguia demover o interlocutor, propondo um outro modo de “ver”, outra “visão de mundo”, uma outra “lógica”, no contraponto do que se apresentava como garantia do “lugar” branco e consequente exclusão dos negros.

Era esta argumentação que Lélia ensinava nas aulas, cursos e palestras. Era para esta argumentação que Lélia disponibilizava a alunos, amigos e admiradores, o conhecimento que havia compreendido e desenvolvido ao longo de décadas e que continuava a desenvolver. Era esta argumentação que Lélia entendia como essencial para a garantia do “lugar de negro” como o lugar da Dignidade e do regate da verdade sobre nossa gente, nossa história.