Nas expressões com Jorge Ogum, por Fabio Caffé

A professora Ana Paula Alves Ribeiro inicia o texto Caminhos de Ogum: Florindo as ruas, festejando São Jorge e Ocupando a Cidade com a linda letra da música Medalha de São Jorge escrita por Moacyr Luz e Aldir Blanc. Um dos versos desta música nos diz “Deus me perdoe a intimidade” São Jorge é íntimo de nós. É amigo e companheiro nos protegendo “Que a malvadeza desse mundo é grande em extensão E muita vez tem ar de anjo E garras de dragão”. Algo parecido nos dizem as pesquisadoras Maria Beatriz Porto e Rebecca de Luna Guidi no catálogo da exposição As muitas Faces de Jorge realizada no Museu do Folclore Edison Carneiro em 2011 (RJ). Mas elas também destacam a hierarquia existente entre o santo e o devoto
 
Já a devoção implica vínculos mais duradouros e de caráter íntimo entre devoto e santo, que se estabelecem de forma profunda e se baseiam no conhecimento mútuo, em relações de confiança e de fé, e que podem assumir formas semelhantes à amizade (Menezes, 2004). Medeiros (1995) lembra que, apesar de o santo ser muitas vezes considerado um amigo, o caráter íntimo da devoção não é isento de uma hierarquia constituinte. (GUIDI e PORTO, 2011, p 44).

Lembro de algum dia da década de 1980 em Vila Valqueire, Rio de janeiro, andar na casa de minha avó e no alto de um corredor tinha um quadro de são Jorge, essa imagem ficou gravada na minha história de afetos. Outra lembrança que trago no peito é que sempre ao ir para o colégio eu passava pela igreja Matriz de São Jorge em Quintino, essa lembrança também passou a morar no meu coração. O presente ensaio fotográfico é uma homenagem a devoção das pessoas no dia de São Jorge.

Desde 2007 fotografo a festividade do santo guerreiro (que no candomblé é o orixá Ogum). Este conjunto de fotos foram realizadas na Igreja Matriz de São Jorge e nos arredores por onde passa a procissão em Quintino, bairro do subúrbio do Rio de Janeiro. Estes registros fotográficos foram escolhidos porque mostram os devotos do santo guerreiro no interior da igreja e na rua, durante o dia e a noite. Eles circulam por diferentes espaços: missas, terreiros, rodas de samba, em casas. São Jorge une profano e sagrado.
Outro tema que quero destacar por meio da escolha destas fotos é a importância da cultura afro-brasileira na festa de São Jorge Ogum. A presença desta cultura se faz presente através das rodas de capoeira, rodas de samba, feijoadas, dentre outras atividades que são realizadas pela cidade neste dia.
Aqui podemos falar sobre a centralidade dos terreiros de candomblé onde aconteciam várias atividades, dentre estas as rodas de samba, nas casas das tias baianas no Rio de janeiro no início do século XX. Outro exemplo e união entre São Jorge Ogum e o samba é a famosa carreata que sai do Império Serrano vai até a quadra da Imperatriz Leopoldinense em Ramos, bairro do subúrbio da Leopoldina. Segundo Ribeiro (2016, p. 167), “contam os mais velhos que é para Ogum (orixá guerreiro, que tem o poder de abrir caminhos) que toca a bateria da escola – Império Serrano.”
Não podemos deixar de falar na variedade de pessoas que festejam São Jorge Ogum e que frequentam a festa. Assim nos diz a autora
O grupo de devotos está longe de ser homogêneo, podem ser identificados em sua multiplicidade e se intercruzam. Pessoas que afluem de todas as partes da cidade para estar nas missas e comemorações no dia de Santo. Pessoas pagando, renovando e fazendo promessas. Católicos e umbandistas. Músicos e integrantes de várias escolas de samba. (RIBEIRO. 2016, p. 170).

Em matéria do Jornal O Globo escrita por Jéssica Lauritzen podemos ver histórias de devotos como a de Renato Costa, de 47 anos, que mora em Piedade e junto com sua família é voluntário na Igreja Matriz. Em entrevista para Lauritzen ele nos diz “Eu digo que sou um como um boi marcado. Não tenho só devoção a São Jorge, tenho amor a ele. A minha vida, o meu caminho, tudo meu pertence a ele, inclusive essa casa.” Outro ponto desta entrevista que nos chamou a atenção foi o trânsito de Renato Costa entre o catolicismo e a umbanda. Ele diz

Eu frequento e trabalho na igreja católica, mas também vou a terreiro de umbanda; só não sou filho de santo. O que muda é o nome: na igreja católica é São Jorge e na umbanda, Ogum, mas é o mesmo mártir guerreiro. A mensagem deste ano no catolicismo é respeitar o irmão, independentemente da crença que se tenha.

Como conclusão gostaríamos de falar sobre a importância de São Jorge Ogum nestes tempos de Coronavírus e de grave crise política que atravessa o Brasil atualmente (junho de 2020). O santo guerreiro pode nos transmitir confiança, coragem para vencermos tal cenário. Mas aliado a isso se faz urgente e necessário constantemente nos organizarmos e lutarmos pela construção de uma sociedade antirracista, mais justa e solidária.
Referências
 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
GUIDI, Rebecca de Luna.; PORTO, Maria Beatriz. As muitas faces de Jorge: aspectos da devoção ao santo guerreiro / pesquisa e texto de Maria — Rio de Janeiro : IPHAN, CNFCP, 2011;

LAURITZEN, Jéssica. Devotos contam suas histórias de amor e gratidão a São Jorge. (Matéria publicada no jornal O Globo no dia 23 de abril de 2016) https://oglobo.globo.com/rio/bairros/devotos-contam-suas-historias-de-amor-gratidao-sao-jorge-19137354 (Consultado no dia 18 de junho de 2020);

RIBEIRO, Ana Paula Alves. Caminhos de Ogum: Florindo as ruas, festejando São Jorge e Ocupando a Cidade. Dossiê Capitalismo Cultura. Arquivos do CMD, Volume 4, N.2 Jul/Dez, 2016 https://periodicos.unb.br/index.php/CMD/article/view/9152/8155;

SIMAS, Luiz Antonio & RUFINO, Luiz. Fogo no Mato: a ciência encantada das macumbas. Rio de Janeiro. Editora Mórula, 2018
VELLOSO, Mônica. As Tias baianas tomam conta do pedaço. Espaço e identidade cultural no Rio de Janeiro. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 3, n. 6, 1990, p. 207-228.


Sou mestrando em Educação, Cultura e Comunicação em Periferias Urbanas (FEBF – UERJ). Graduado em Cinema pela UFF (Universidade Federal Fluminense – RJ). Formado em fotografia pela Escola de Fotógrafos Populares em 2006. Caffé é integrante do Coletivo Multimídia Favela em Foco. Trabalha como fotógrafo documentarista desenvolvendo projetos autorais ligados à defesa dos direitos humanos, daí sua busca em estabelecer um diálogo entre fotografia e diversidade cultural, sobretudo no que diz respeito às manifestações culturais e de fé no Rio de Janeiro. Em paralelo a atividade de fotógrafo, Caffé é professor de fotografia Da Escola Brownie 41 e da Escola de Fotografia Documental e Comunicação Crítica. Ministra oficinas de fotografia no RJ e em outras cidades do Brasil. Participou de exposições individuais e coletivas no Brasil e no exterior. Possui fotografias no Acervo do MAR (Museu de Arte do Rio).

Site: www.fabiocaffe.46graus.com

Instagram: @fabiocaffefotografia

Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/4624194152881661