Santo Orixá Cristão Guerreiro, por Tetê Silva

A primeira vez que fotografei a festa na Igreja de São Jorge no Centro do Rio foi em 2013. Desde então, a cada ano, procuro voltar ao evento – e com espírito sempre renovado. Não sou devota do santo, nem sou uma pessoa religiosa. E embora eu tenha uma relação distanciada com o culto à(s) divindade(s) de qualquer panteão, sou fascinada pelas crenças populares brasileiras, pelos seus ritos, simbologias e pela beleza das cerimônias, como as que ocorrem em honra a São Jorge.

As fotografias da série Santo Orixá Cristão Guerreiro buscam promover um diálogo aberto e generoso com as crenças espontâneas, acolhendo o sincretismo popular muitas vezes condenado pela Igreja Católica e mesmo por vertentes das religiões de matrizes africanas: Jorge da Capadócia, o guerreiro cristão, soldado nas legiões do imperador Diocleciano, quase sem registros históricos e envolto em mistério, se mistura na festa, na rua, no adro das igrejas e na dimensão mais íntima dos devotos com Ogum guerreiro, rei de Ifé,senhor do ferro e da guerra, grande orixá Yorùbá.

Essa encantadora miscigenação fica evidente quando percebemos que a pessoa que entrou na igreja para assistir à missa e ser benzida com água benta pelo padre é a mesma que vai tomar um passe pelo babalorixá ou pela ialorixá do lado de fora, e que mais tarde participa do Pagode de São Jorge abusando da cerveja, bebida preferida de Ogum. Assim, procuro com meu trabalho uma posição limítrofe frente às festas religiosas, religiosamente distanciada, mas estética, política e socialmente envolvida com o enlace harmônico e/ou tenso entre o sagrado e o profano.

Graduada em Psicologia, a fotografia entrou no foco de Tetê Silva ainda durante a faculdade. Interessada em ampliar sua formação acerca dos problemas da imagem, trabalhou com cerâmica (por um curto período) e com gravura (por um período mais longo). A experiência resultou em uma exposição individual. Outras exposições coletivas vieram, tanto em gravura quanto em fotografia, no Brasil e no exterior (em Iserlohn, Alemanha, 2017; em Miami, EUA, 2018 etc.). Foi finalista do Prix Photo Web Aliança Francesa (2014), do 7º Euroclick (2015) e do Observations Street Photography Festival na Alemanha (2017). Possui trabalhos em publicações e coleções como a do Museu da Imagem e do Som de Santa Catarina e de Campinas; do Museo Municipal de Artes Plásticas de Rivera, Uruguai; do Centro de Cultura e Informações de Brno, República Tcheca; do History Miami Museum; etc. É membro do Flanares, coletivo brasileiro dedicado à fotografia de rua, e do Negras[fotos]grafias, coletivo de fotógrafas negras baseado no Rio de Janeiro.

Site/Portfólio: https://www.tetesilva.com/

Perfil no Instagram: www.instagram.com/tetesilva21