Entrevista (Memória do projeto Kalunga)

Entrevista:

Martinho da Vila

Martinho da Vila e Clara Nunes na Academia de Musica de Luanda, em 1980, durante o Projeto Kalunga (Foto: Dulce Tupy)

Comentário: Esta entrevista foi feita por e-mail a pedido do próprio Martinho da Vila. O sambista foi o único dos integrantes do Projeto Kalunga que já havia se apresentado em Angola. Em 1972, ele cantou em diversas cidades do pais, que na época ainda não havia se libertado do poder colonial português. Em 1980, ele retornou com o Projeto Kalunga e encontrou Angola independente. Desde então, mantém os laços com o pais africano. Em 1982, ele organizou um show de músicos angolanos, na Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro, chamado Canto Livre de Angola.

MARTINHO DA VILA RECORDA O PROJETO KALUNGA:

– Como aconteceram os convites para participar, primeiro, da sequência de shows em Angola, em 1972, e, depois, do Projeto Kalunga, em 1980?

R – Angola ainda estava no tempo colonial e o convite veio de empresários portugueses, creio que simpatizantes dos ideais de independência. O Projeto Kalunga foi idealizado pelo produtor Fernando Faro que me convidou a colaborar na elaboração.

– Como você vê as relações entre o samba e o semba? Ao mesmo tempo que o semba é considerado a origem do samba, as diferenças são evidentes e Liceu Vieira Dias no filme O Ritmo do N´gola Ritmos fala da influência do samba na retomada do semba.

R – A palavra semba é muito antiga e tinha diversos significados em kimbundo, inclusive batuque. Nos anos 1950 o grupo musical N´gola Ritmos, liderado pelo compositor Liceu Vieira Dias, criou um novo som incluindo instrumentos de sopro, guitarra e teclados, e o novo ritmo foi batizado como semba. Portanto, o nosso samba, surgido na primeira década de l900 é mais antigo que o semba.

– Fiz uma pesquisa nos jornais da época e encontrei apenas duas reportagens sobre o Projeto Kalunga, que vieram da agência de notícias portuguesa. Por que a grande imprensa do Brasil ignorou o evento? Você acha que houve algum tipo de censura?

R – Em l980 a imprensa não era livre e, talvez por auto-censura, ignorou o importante evento que tinha no elenco artistas contrários à ditadura militar. O silêncio também foi causado porque Angola era um país alinhado com o bloco comunista.

– Qual foi o impacto do Projeto Kalunga em Angola, houve grande público, cobertura da imprensa local? Você acha que o evento ficou na memória dos angolanos e fortaleceu as relações entre Brasil e Angola?

R – O impacto foi grande e muito noticiado por todos os veículos de imprensa de lá. Até hoje é considerado o maior evento musico-cultural de Angola.

– Nos seus livros você diz que não havia notícias sobre Angola nos anos 1970. Você acha que houve, nos anos 1980, uma redescoberta da África que culminaria com Kizomba, em 1988?

R – Sim. E o Projeto Kalunga alavancou as relações entre o Brasil e Angola.

– Quais os momentos da viagem que ficaram mais marcados em sua memória?

R – Foram muitos. Mas o que mais impressionou foi o conhecimento do público sobre a nossa música em geral. Ficou marcada na minha memória a participação do Dorival Caymmi sozinho com seu violão e o povo cantando com ele. Também o final do show com todos cantando o Cio da Terra.

– Você considera o Canto Livre de Angola um dos legados do Projeto Kalunga?

R – O Canto Livre de Angola foi uma contra-partida do Kalunga que eu, particularmente, fui incentivado a realizar.

– Como se manteve sua relação com Angola após o Canto Livre, em 1982?

R – Como aqui não havia embaixada angolana, eu era solicitado para receber autoridades e missões comerciais que vinham de Angola para o Brasil. Por isso eu era tratado como um embaixador, título honorário que recebi posteriormente.